Em 1970, quando tinha 20 anos e estava pela primeira vez na Amazônia numa expedição de primeiro contato com os índios panará, o fotógrafo Pedro Martinelli estava descansando em uma rede e, ao seu lado, em outra rede, estava Odair, caboclo na época construtor da estrada Cuiabá-Santarém. "Eu era um deslumbrado", diz agora Martinelli, que se virou naquele momento para Odair e fez qualquer comentário sobre a beleza da floresta. "É, Pedrão, é bonito e triste...", retrucou sabiamente o mateiro com seu rádio de pilha ao lado. Essa é uma das tantas histórias que Pedro Martinelli uma das histórias presentes no livro Gente X Mato, que o fotógrafo lança hoje, às 19 horas, na Livraria Cultura. Espécie de balanço de sua extensa documentação fotográfica da Amazônia por quase 40 anos, não espere ver na publicação as imagens do que seria aquele esplendor esteriotipado em torno do registro da fauna e flora da região - até o formato do livro, tablóide, é diferente, alternativo e despretensioso. Mas é claro que há a beleza também, mas ela é diferente - e acompanhada por preciosas legendas feitas pelo fotógrafo -, porque a máxima para Martinelli é a de que "a floresta é o caboclo". "É isso que não descobrimos ainda. As pessoas falam de sustentabilidade, mas na Amazônia, se você acabar com esse homem, não se preserva mais nada. A floresta não é árvore, só ela por ela", diz.
Fotógrafo com extensa e premiada carreira no jornalismo, Martinelli fez coberturas importantes em diversas áreas trabalhando no jornal O Globo (1970 a 1975), na Veja (1977-1983) e no conjunto de revistas da Editora Abril (1983-1994). "Foi um percurso interessante: fiz cobertura de guerra, Copa do Mundo, de Olimpíadas, coisas emblemáticas, e depois fui para um lado que era de estúdio, sobre moda, beleza, decoração e nu", resume o fotógrafo. Seu primeiro contato com a Amazônia foi durante uma cobertura jornalística em 1970, acompanhando, como já se disse, expedição da Funai de encontro aos "índios gigantes". Desde então, voltou à Amazônia por muitas vezes, entre idas e vindas do Norte ao Sudeste, mas sempre "para fazer pautas". "Tinha uma sensação de perda e em 1994 falei ?chega!?, queria contar as histórias da minha maneira", conta. "Durante dez anos planejei minha saída", continua Martinelli, que apenas largou o emprego após conseguir comprar um barco, o Taba, com o "comandante Almir, que na época tinha 17 anos", diz. Até hoje ele já lançou os livros Panará - A Volta dos índios Gigantes, com textos de Ricardo Arnt, Lúcio Flávio e Raimundo Pinto - publicação de cunho já histórico com registros da década de 1970 -, Amazônia - O Povo das Águas e Mulheres da Amazônia, este, de 2003, já pelo seu próprio selo editorial, o Jaraqui.
OS ANJOS DA GUARDA
Quando decidiu largar tudo para se dedicar à Amazônia, ele sabia que lá é tudo bem diferente e que era preciso se dedicar de corpo e coração ao tema com suas Leicas e com rolos de filme, na maioria em preto-e-branco - mas há produção colorida também . "Na Amazônia as coisas acontecem, não adianta ir atrás delas. As dimensões são tão grandes que você fica louco." Essa sua visão vai de encontro a uma questão muito forte e presente em sua postura como fotógrafo, que voltou sua câmera para o povo da região. "Começo a fotografar quando sou adotado pela comunidade. Quando chego à casa dos caboclos, não vou fotografando. É uma outra relação: começamos uma conversa e por mais que a foto aconteça na minha frente eu jamais tento fazê-la. Já perdi muitas fotografias desse jeito, mas vale a pena", afirma. Deve ser, afinal, uma relação de respeito e confiança para fazer a fotografia. "O caboclo é superformal, demora para ele saber minha intenção. Mas aos poucos ele vê que eu fotografo suas atitudes, vê que se tem uma arara na árvore eu não a fotografo, mas sempre ele, sua mão." E o máximo dessa experiência é encontrar o que Martinelli chama de "anjo da guarda" em uma fotografia: o caboclo com um olhar ou em um momento específico e belo.
Em sua casa, em um local afastado da metrópole São Paulo, Martinelli vai mostrando com simplicidade e emoção algumas das fotografias com seus anjos da guarda. "O meu Deus é um caboclo específico, que está lá parado e você encontra raramente. Ele tem uma atitude e um olhar tão penetrante que quase te hipnotiza... Ele não está submisso, ele não ri, a atitude dele é assim, parada", diz o fotógrafo, apontando para uma foto com um grupo de pessoas debaixo de uma lona, que ele demorou dez dias para fotografar ; e uma imagem e levou um ano e meio para captar: o movimento exato de um homem sobre um barco pegando um pirarucu no Lago Paraoá, em 1996.
Mas a Amazônia é bela e triste e hoje Martinelli se vê um pouco desencantado com seu tão caro tema. O livro Gente X Mato - feito em parceria com o jornalista e roteirista Marcelo Macca e com o designer Ciro Girard, com capítulos como Comida, Solidões, Amazônia de Quem? - já começa com a reprodução de um anúncio do governo militar, lançado em 1970, com o slogan "Chega de lendas, vamos faturar!" São, como diz Martinelli, 40 anos vendo gente faturando, além de "muito desleixo" e miséria. Dessa maneira, Gente X Mato tem sempre também um olhar crítico e incisivo.